quinta-feira, 2 de setembro de 2010

FILME ÀS AVESSAS

Como em qualquer grande produção americana feita especialmente para a telona, uma grande catástrofe está para acontecer.
O mar está prestes a invadir Nova York. A população desesperada foge para não morrer, ao mesmo tempo em que espera o herói do filme vestido com seu macacão azul estampado com a bandeira americana salvar todo o planeta. Eles sabem que o seu herói que, diante da bandeira branca e vermelha que jura honrar a pátria, salvará o planeta, pois afinal, ele é americano.
Tudo seria cinematograficamente perfeito se não fosse mais um dos inúmeros e repetidos apelos feitos pelo cinema americano. Mas, diante da realidade o herói americano não passará de mais uma das bilhões de vítimas da espaçonave terra que está prestes a sucumbir pelos estragos provocados pelos seus tripulantes.
Distante da telona e do mundo de faz de conta o herói mundial, os Estados Unidos, representado nos filmes americanos por um Herói galanteador e impecavelmente dotado de uma “inteligência suprema”, não passa na verdade, de ser o maior vilão das catástrofes tão lembradas pelos famosos cineastas.
Aquele que se diz herói é quem na verdade mais consome recursos naturais e libera em escala recorde, os gases causadores do aumento do efeito estufa. A sociedade americana está muito longe da imagem perfeita que tenta demonstrar ao mundo, em que é capaz de tudo e consegue salvar o planeta de qualquer catástrofe ou de qualquer problema, ainda mais, quando constatamos que eles são os maiores causadores dos grandes problemas relacionados com o consumismo exagerado.
Lembra da catástrofe provocada pelo Furacão Katrina em que o mar invadiu Nova Orleans? Pois é! Os tão eficientes e estrategistas salvadores do planeta, não conseguiam sequer resgatar os seus cadáveres que boiavam pelas ruas da grande cidade. Ninguém sabia para onde ir. A cena fatídica dentro do ginásio de esportes de Nova Orleans, bem que parecia com aquelas cenas que eles, os americanos, gostam de estampar sobre o pouco que sabem sobre os países em desenvolvimento. Sabem tão pouco sobre outros países, que pensam que nós brasileiros passamos o dia jogando futebol e dançando samba nas ruas repletas de animais selvagens.
Sobre eles, também sabemos pouco, pois durante anos fomos bombardeados somente com aquilo que eles quiseram nos mostrar em filmes, notícias e documentários, eximindo de nos mostrar a realidade que existe por detrás dos bastidores. Porém agora, o mundo se volta para a verdade sobre o país do Tio Sam e começa a enxergar que o mundo deve cobrar com firmeza uma atitude dos Estados Unidos, para que o planeta não sucumba com a degradação que principalmente eles estão fazendo.
A bandeira listrada com o vermelho do sangue do planeta e com o branco da ausência de uma atitude real por parte dos Estados Unidos lembra que o mundo já começa a ver quem de fato é o grande vilão da degradação ambiental.
Leandro Ditzel
Membro da Academia de Letras, Artes e
Ciências do Centro-Sul do Paraná - ALACS

CIGARRO. UM RALO PARA A ECONOMIA

Muito se tem falado pelos grandes meios de comunicação a respeito da economia do Brasil. Muito se fala a respeito da degradação ambiental e muito se tem questionado sobre as condições de saúde que muitos dizem ser “precária” em nosso país. Mas afinal, o que o cigarro mencionado no título tem a ver com todos esses questionamentos? Primeiro, gostaria que me permitissem falar um pouco desses questionamentos que comumente ouvimos por aí.
Antes de qualquer coisa, gostaria de fazer uma pergunta sobre o que dizem a respeito da saúde pública no Brasil. Será que o nosso sistema de saúde é tão precário assim como a mídia anda mostrando em suas matérias tendenciosas? É claro que há problemas como em qualquer sistema seja ele público ou privado, mas se abrirmos os olhos somente para o que a TV mostra em suas espetaculares notícias dominicais, iremos com certeza julgar e condenar o nosso SUS, o qual tem bem ou mal, nos servido.
Cenas de hospitais lotados, corredores cheios de macas e pessoas deitadas em agonia pelo chão, esperando por atendimento é o que a imprensa televisiva mais gosta de mostrar, pois afinal de contas, dá audiência. Mas o que temos de bom, onde é mostrado? Quem vem focar o que há de nobre em nossa saúde pública? O nosso completo calendário vacinal que é modelo mundial e que custa caríssimo para os cofres públicos, mas acessível a todos com o dinheiro dos nossos impostos, isso a televisiva mídia sensacionalista não mostra. Mas quando por motivos técnicos ou, seja lá qual for, faltar a “vacina da moda”, pode ter certeza que o fato vira manchete em todos os telejornais.
Não se questiona quando um ente nosso utiliza uma vaga em UTI e que o nosso tão apedrejado sistema de saúde investe milhares de reais em um único dia com um único paciente, a fim de lhe dar o melhor que puder. Claro que isso é um inquestionável direito, pois está muito bem expresso na constituição de 1998, mas isso, não nos dá o direito de vermos somente o que há de ruim. Quero deixar para falar sobre saúde pública em outro momento, pois é para mim um assunto empolgante. Quero falar agora, sobre um mal que prejudica esse sistema.
O fato é que questionamos tudo, a saúde, a economia e o meio ambiente. Claro que temos que questionar, pois um povo tem que ser crítico, mas devemos questionar com critérios. Questiona-se as leis anti-tabagismo com grandes polêmicas, esquecendo que o cigarro é um grande mal para a saúde e para a economia do país.
Não critico em momento algum nem o fumante que é um dependente químico e necessita de ajuda e tratamento para parar de fumar, e nem o produtor que precisa sobreviver, pois não recebe incentivo necessário para tal.
Critico o cigarro em si e os incentivos que se dão para a fabricação deste objeto tão nocivo. Critico a falta de alternativas ao produtor que se vê obrigado a produzir algo que lhe faz mal à saúde, mas esse, não vê alternativa para o sustento de sua família.
Não é crítica sobre crítica, mas sim, mostrar que, enquanto falamos mal da saúde pública no Brasil, não questionamos os bilhões de reais gastos em tratamento aos doentes de câncer, doenças coronarianas, pulmonares, derrames, infartos, entre tantas outras doenças e os bilhões gastos em UTIs, pensões e aposentadorias precoces ocasionadas pelo cigarro.
Quero mostrar que, enquanto questionamos os desmatamentos (e devemos continuar questionando), aceitamos que milhares de metros cúbicos de madeira são derrubados e queimados para a fabricação do cigarro, gerando sérios problemas ambientais. Quero falar que enquanto falamos da poluição dos rios, tentando achar culpados, milhões de peixes dos nossos rios e mares, sucumbem engasgados pelas bitucas de cigarro que chegam às águas vindas de longe através dos bueiros.
Quero mostrar que, por detrás de uma arrecadação de impostos, esconde-se um enorme ralo quase invisível do dinheiro público jogado esgoto abaixo por causa do cigarro. Dinheiro esse que poderia ser utilizada na melhoria dessa saúde que se teima em falar mal. Dinheiro que poderia ser muito bem aplicado na habitação, transporte, educação e tantas outras melhorias para o nosso país e às nossas cidades.
Um mundo melhor, mais saudável e sustentável é o que sonhamos. Fazer a nossa parte é possível e sem o cigarro isso se tornará bem mais fácil.
Leandro Ditzel
Membro da Academia de Letras, Artes e
Ciências do Centro-Sul do Paraná - ALACS

NÚVEM DE FUMAÇA! SINAIS DAS QUEIMADAS...VESTÍGIOS DA IGNORÂNCIA

O sol grandioso e vermelho que se despede no horizonte ao fim do dia, encanta os casais apaixonados. É um belo cenário de encher os olhos de quem o admira. Mas o que muitos não sabem, é que, o bonito espetáculo que lembra cenas do filme “Empire of the Sun” (Império do sol), é na verdade uma cena preocupante. Os tons avermelhados da nossa estrela são proporcionados pela intensa presença de poluição, principalmente a fumaça.
Estamos no inverno. Nessa época, é bastante comum a redução nos níveis de chuvas em nossa região, em função da própria característica da natureza. Dessa forma é normal que ocorram períodos de seca, onde a vegetação se torna bastante fragilizada e ressequida pela baixa umidade do ar e do solo.
O que não é normal é a quantidade de queimadas que ocorre ano após ano. Alguns até justificam dizendo que as queimadas são normais nessa época do ano, mas isso não é verdade. Verdade seria se as queimadas fossem resultado de eventos da natureza, como acontece quando um raio desencadeia um incêndio, após a descarga elétrica ter entrado em contato a vegetação seca. Para isso, no entanto, a freqüência com que esses raios viessem a ocorrer, deveria ser exorbitante para podermos alegar que as queimadas fossem normais para o período, o que sabemos que não é assim que ocorre.
O que vemos na verdade, é uma seqüência de ATOS CRIMINOSOS onde moradores tanto da zona urbana quanto da zona rural, ateiam fogo em terrenos, montes de vegetação seca, pastos e outros locais, com o intuito de “resolver” um problema que talvez nem exista, pois a vegetação seca poderia inclusive ser utilizada como adubo ou simplesmente, enterrada. O que é muito pior, e muito mais cruel, é que há aqueles ainda que colocam fogo nas matas. Não há motivos verdadeiros para se fazer queimadas, a não ser que seja para ocultar de imediato, alguma coisa para a qual haja a necessidade de se livrar de maneira “urgente”, o que seria de certa forma bem estranho.
Motivos para causar incêndios podem existir ou não, dependendo do que se passa pela cabeça de quem os provoca. O que não existe, é justificativa cabível para tamanha ignorância. Ignorância sim, se colocarmos em uma balança os prós e contras desse repugnante ato de vandalismo, pois esse fogo intencional poderá atingir proporções gigantescas e descontroladas. Vamos pensar então, nos dois lados dessa balança fazendo duas perguntas básicas.
A primeira pergunta é: Quais são os pontos positivos dos incêndios provocados? Bem, vejamos..., deixe-me pensar.....????....????.....????.... Puxa vida! Estou aqui, tentando encontrar algum ponto positivo, mas está difícil! Se alguém tiver uma solução para essa primeira pergunta, por favor, me diga.
Vamos para a segunda pergunta então: Quais são os pontos negativos dos incêndios provocados? Agora acho que está bem mais fácil. Vamos aqui então, enumerar alguns:
- incêndios causam poluição, que causam acidentes de trânsito com vítimas;
- as poluições dos incêndios causam problemas de saúde, que lotam os hospitais e postos de saúde, ocasionando sofrimento e gastos aos serviços públicos de saúde e ao bolso daqueles que sofrem com os problemas respiratórios;
- Incêndios destroem as nossas florestas, matando a vegetação e os pobres animais que, indefesos, morrem queimados pela ignorância de alguns;
- o carbono liberado pela queima das florestas, eleva os níveis dessa substância na atmosfera e o aumento no efeito estufa. Sofrerão com isso, os que são culpados e os que são contrários a esses atos criminosos;
- incêndios no campo ou na cidade, abarrotam os quartéis do corpo de bombeiros com chamadas telefônicas, para que haja o controle desses incêndios, onerando os cofres públicos e comprometendo os serviços quando há um aumento significativo nos atendimentos prestados;
- na área agrícola, as queimadas destroem micronutrientes importantíssimos para a produção de alimentos, empobrecendo o solo que fica desgastado com o fogo.
- as redes de transmissão de energia podem ficar comprometidas, ocasionando cortes nos abastecimentos e causando enormes prejuízos ;
- Em dias de frio, o problema é pior, pois a fumaça das queimadas se acumula, causando uma densa e feia cortina de fumaça, ocasionando os problemas de saúde e outros tantos problemas a mais.
Esses são apenas alguns dos exemplos. Vários outros poderiam aqui ser citados até com certa facilidade. Mas Uma pergunta me vem à mente agora. Como é que aquelas pessoas que continuam colocando fogo em quintais, terrenos baldios e florestas, não conseguem perceber isso? Ou não percebem, ou não estão nem aí com os narizes dos outros.
O que aqui não posso deixar de mencionar, é que essa atitude tão prejudicial a toda população e ao meio ambiente, é feita principalmente nos finais de semana ou no finalzinho da tarde, na tentativa de que os autores não sejam pegos em flagrante e esses crimes continuem impunes.
Da próxima vez que alguém pensar em colocar fogo em algum lugar, esse alguém deverá também pensar nas conseqüências desse tipo de atitude, e pensar ainda que, eu e mais algumas milhares de pessoas ao seu redor, poderemos estar sofrendo com esse ato tão primitivo de saírem por aí, botando fogo no que está quieto. A atitude errada pode ser sua, mas o problema passa a ser com os outros. Pense nisso!

Leandro Ditzel

domingo, 15 de novembro de 2009

CORRUPIÃO

Lá vem Corrupião. Lá vem ele, tropeçando sobre suas próprias patas trêmulas pela fome e pela caquexia. Lá vem ele ainda batendo os dentes por ter dormido mal sobre a branca geada que cobre a fria grama enlameada da invernada, protegido apenas pela sua rala pelagem mal cuidada.
Segue Corrupião ainda com fome e puxado à força pelo homem que sonha com a fama, até o local onde receberá uma corda que lhe apertará suas virilhas, fazendo com que sinta fortes dores, proporcionando êxtase ao homem com chapéu e calças largas. Quanto mais dores Corrupião sentir, mais fama o homem terá, pois os pinotes de desespero pela corda que quase o corta, faz com que o homem seja aplaudido pela multidão que mal sabe por que aplaude.
Lá vem Corrupião agora correndo e dando pinotes, estimulado pelas esporas que o ferem e pela corda que o maltrata. Pobre Corrupião que enquanto dá pinotes, divaga e sonha com um pasto verde, com a liberdade, com carinhos a serem recebidos e com a companhia de seus semelhantes.
Semelhantes ele não tem por perto quando mais precisa e, os carinhos, muito menos. Água, o homem acha que ele quase não precisa e, o pior, que essa água é quase sempre suja. Alimentos são insuficientes e sem variedades. Triste realidade, que ainda quando pequeno, ele mal imaginava que teria como destino.
Mas lá está Corrupião com olhos estalados, os dentes rangendo e dando pinotes pelas fortes dores, enquanto sonha com uma realidade menos cruel e torcendo para que o tal “espetáculo” logo acabe. Ao acabar a apresentação, Corrupião ouve uma grande salva de palmas. Não Corrupião! As palmas não são para você! São para o homem de chapéu e calças largas que pouco valor dá para você.
Dizem por aí, que Corrupião e outros como ele, que por aí também dão pinotes nos dias frios de inverno, são bem tratados e nada sofrem nos dias de festa. Dizem ainda, por aí, que festa como esta, melhor não há, e que benefícios, estas trazem para cá. Mas corrupião não consegue usufruir de tais benefícios que os homens de chapéu e calças largas, e os homens e mulheres que aplaudem, conseguem usufruir.
Há homens e mulheres que comem por diversão enquanto passam perto de Corrupião e, outros ainda, que lucram com tudo isso, um lucro que não sei bem como é. Doutro lado da cerca, Corrupião olha para os homens e mulheres que comem por diversão, enquanto trêmulo, se recupera das dores, ouvindo sua barriga a roncar pela fome.
Hoje é um dia feliz. Corrupião vai finalmente poder ir embora, olhando ainda exausto para trás, o lugar tão cruel, enquanto o caminhão que o leva, seque pelas ruas trepidantes de pedras irregulares.
Aqui está agora, Corrupião, de volta para o destino incerto, comendo o capim que o dono de algum terreno esqueceu-se de cortar, torcendo para que algum ser mais amável, de dó vendo a cena do pobre animal amarrado em um tronco, leve ao menos um balde com água pelo menos uma vez por dia.
Amanhã, talvez seja um dia incerto. Ele não sabe se para onde vai, sofrerá mais, ou menos. Mas, pelo valor que seu dono lhe deu, Corrupião foi trocado por um velho jogo de pneus.

Autor
Leandro Ditzel
Membro da Academia de Letras, Artes e
Ciências do Centro-Sul do Paraná - ALACS

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O DESABAFO DE UM PASSARINHO

Hoje pela manhã, o Sol nasceu belo e vigoroso. Seus raios vieram como um sopro de vida e aconchego, que aqueceram meu corpinho e aliviaram um pouco meu sofrimento por causa de uma gélida e interminável noite que enfrentei. Não havia como parar de tremer, exposto ao vento cortante que penetrava através das minhas frágeis peninhas.
Nessa noite, fiquei praticamente o tempo todo acordado e com uma fome que doía o meu papinho. Eu estava em uma das poucas árvores, que ainda restam na região, olhando para uma casa bem próxima a mim. Através dos vidros da janela embaçada pelo frio e pelas cortinas entreabertas, dava para ver pessoas felizes, bem agasalhadas e sorridentes, sentadas em um confortável sofá, comendo alguma coisa que parecia ser deliciosa. Eu imaginava que aquilo que comiam era muito bom, mas, a mim restava apenas imaginar como seria o gosto daquela comida, enquanto minha fome insistia em me lembrar que eu teria uma luta pela busca de algum alimento em forma de migalhas, assim que o dia amanhecesse.
Talvez na tentativa de esquecer meu sofrimento causado pelo frio e pela fome, não parei de olhar para a movimentação dentro daquela casa. Pude perceber os chinelos de pelo, que imagino serem quentinhos, e aquelas pessoas diante de uma bonita lareira, se aquecendo com o fogo que deveria fazer com que não sentissem o mesmo frio que me atormentava aqui fora. O fogo e a lenha lá dentro fizeram lembrar que, dias atrás, eu havia perdido a árvore que eu e minha família morávamos a poucos metros daqui, e que aquele homem, que sorri dentro daquela casa, havia cortado nossa casinha, e picado em vários pedaços. Hoje, eu pude ver aquilo que um dia foi a minha casa alimentando o fogo, para que aquelas pessoas não passem frio em uma noite tão fria como essa, que faz as minhas asinhas doerem, quase que congeladas.
Defronte a um objeto quadrado, que ouvi dizer que chamam de televisão, aquelas pessoas riam e se emocionavam diante de imagens ou outras realidades distantes, enquanto eu chorava em silêncio ao lembrar que, na minha realidade, terei mais alguns meses de frio intenso nas intermináveis noites.
Vi uma daquelas pessoas tomando um líquido fumegante, que imagino ser o que chamam de “chá quentinho”. Como aquele chá quentinho poderia ser reconfortante para um ser como eu numa noite como essa?
Mas, ao voltar à minha realidade, lembro-me que, pela manhã, terei que procurar por uma poça d’água suja e congelada, para que possa matar a minha sede e continuar minha luta pela sobrevivência. Quem sabe, eu tenha a sorte de encontrar um ser bondoso que pense em nosso sofrimento e coloque água e um pouco de comida para que nós, pássaros, herdeiros passivos da devastação causada pelos seres humanos, possamos ter o que beber e o que comer! Mas, isso só saberei assim que o tão esperado Sol aponte no horizonte pela manhã.
Quando já eram altas horas da noite, talvez madrugada, pude ver que as casas começaram a apagar as suas luzes e, quando isso ocorreu, sabia, pela minha experiência, que teria ainda um longo período de frio e escuridão.
Por outra janela, olhava atento, com os meus olhinhos gelados, que as pessoas se deitavam em camas macias e se cobriam com cobertores, os quais eu imaginava serem gostosos para se dormir tranquilamente.
As luzes se apagaram e, em meus pensamentos, desejei carinhosamente bons sonhos a todos dentro daquela casa.
Os sons da coruja e dos gatos me apavoravam, mas vivia na esperança de sempre, de que tudo estaria bem pela manhã.
Quero dizer que, eu e todos os pássaros, gostamos muito dos seres humanos, apesar de apenas alguns poucos deles gostarem de nós, e que apesar das diferenças entre eles e nós, todos temos uma luta para sobreviver em um mesmo mundo, dividindo o mesmo espaço.
A mim, restava sonhar com o dia que demorava a chegar, e, sonhava ainda, com não ver nenhum amiguinho meu morrer nessa noite com o frio que se fazia impiedoso, e para que nenhum ser malvado o maltratasse ou o apedrejasse por motivo nenhum assim que o dia despontasse.
Não peço para que vocês, seres humanos, recolham meus amiguinhos e eu para dentro das suas casas, pois queremos viver nossa liberdade. Peço, porém, que nos respeitem, nos protejam, mantenham as matas intactas e, se possível, deixem um pouco de água e comida no jardim ou no quintal, e também um cantinho debaixo do beiral do seu telhado para nos confortar um pouco do sofrimento que temos em dias de frio, pois, assim como vocês, sentimos frio, fome, dores e temos sentimentos.


Texto escrito por Leandro Ditzel

Leandro Ditzel
Membro da Academia de Letras, Artes e
Ciências do Centro-Sul do Paraná - ALACS

Curriculum Lattes

O DESPERDÍCIO E A FOME

Estava eu, um dia desses, voltando de uma viagem com um grande amigo meu, quando sem ter muita opção, paramos à beira da rodovia para almoçarmos em um daqueles restaurantes de grande movimentação. Com fome, sentamos à mesa e começamos a almoçar. Com todo aquele movimento, comecei a observar as pessoas que almoçavam próximas a nós.
Foi quando então, me deparei com uma cena que de cara me chamou a atenção. Na mesa bem em frente a que eu e meu amigo estávamos, estava um casal comendo um rodízio de carnes. O garçom não parava de servir aquele casal e, a quantidade de carne que ele colocava em seus pratos era espantosa. Há cada cinco minutos em média, o casal chamava pelo garçom, para que ele trocasse a carne que estava em seus pratos, pois aquela que há instantes atrás ele havia servido, já estava fria e não estava mais de agrado ao casal. Fiquei surpreso em ver tamanho desperdício. Mas o casal continuava a solicitar pela presença do garçom, dizendo ao funcionário do restaurante: “Garçom, troque essa carne, pois essa aqui já não presta mais”.
Pasmo com o que acabara de ouvir, não deixei de perguntar a mim mesmo: O que é não prestar mais? Será que aqueles pedaços de carne entraram em decomposição em questão de minutos, ao ponto de não mais prestar para o consumo humano? Por que então, o casal não se serviu apenas com a quantidade necessária para saciar a sua fome? Estavam eles comendo por diversão, gula ou porque queriam que o preço da refeição valesse a pena? Não deixei então, de pensar nas várias possibilidades que aquela atitude causaria.
Pensei comigo, nas milhares de pessoas, que pelo mundo afora passam fome e sonham com um pedaço daquela carne, mesmo que tirada de uma lata de lixo. Pensei no aumento da demanda desse produto e no aumento da produção necessária para suprir tal desperdício. Pensei que, esse aumento da demanda, requer aumento na área de pasto para criar o gado, sem contar que além do mais, são necessárias mais áreas agricultáveis para produzir o milho e outros produtos para a fabricação da ração, a qual, os animais irão precisar para engordarem e servirem para a produção da carne.
Já pensou você, que se não fosse o desperdício e o consumo exagerado de carne no planeta, a fome não seria tão cruel com a nossa espécie humana? Queiram ou não, isso é uma verdade. Se o consumo da carne no planeta fosse reduzido, todas as áreas utilizadas para o pasto, bem como para a produção de grãos utilizados na produção da ração animal, seriam utilizadas para a produção de alimentos. Isso iria aumentar a oferta de alimentos oriundos da agricultura, além de reduzir drasticamente aqueles desmatamentos dos quais, insistimos em dar a culpa somente nas péssimas políticas de meio ambiente, esquecendo que o nosso consumismo é o maior vilão da degradação ambiental.
Mas todo o desperdício não é de exclusividade ao consumo da carne. Existem outras formas de desperdícios que vão desde a frota sucateada que esparrama toneladas de alimentos diariamente pelas rodovias do nosso país, ao simples desperdício de alimentos nutritivos em nossas casas que por motivos “culturais”, simplesmente vão parar nos lixões. Esse é o caso, por exemplo, dos alimentos como os talos de beterraba e de cenoura, com alto poder nutritivos, mas que infelizmente não nos demos conta disso ainda.
Como se não bastasse, nas feiras e supermercados, os nossos olhos são atraídos por aquilo que aparentemente é mais saudável, sem nenhuma mancha ou arranhão sequer. Preferimos frutas e legumes “perfeitos”, mesmo que para ficarem com essa aparência agradável, sejam utilizados os agrotóxicos mais prejudiciais ao nosso organismo. Por causa desse desprezo, milhares de toneladas de alimentos de boa qualidade, mas que pela suas aparências, apresentando pequenas “falhas” e manchas, perdem valor comercial e são jogados nos aterros das grandes e das pequenas cidades.
Outro dia, fui á uma pizzaria aqui de nossa cidade, e notei o quanto muitos dos clientes não tem a noção do desperdício. Simplesmente, lançam mão daquela borda da massa, a qual sem ter como ser utilizada é simplesmente jogada no lixo. Tentei entender a lógica desse desperdício, mas nenhuma resposta convincente veio à minha mente. Ao que sei, essa massa (a borda que acabo de mencionar), é basicamente composta de farinha de trigo, aquela mesma que teve seu preço levado às nuvens por causa da diminuição da oferta mundial desse produto.
Pois é. Enquanto falta trigo no comércio mundial, simplesmente jogamos no lixo a comida feita com esse grão, participando dessa forma, para que o preço do produto suba mais e mais, enquanto nossos irmãos desprovidos de recursos, choram por um pedaço de pão seco, vendo seus filhos serem consumidos pela fome.
Está na hora de refletirmos mais sobre nossas atitudes. Está na hora de entendermos que somos todos co-participes das agressões ao meio ambiente, da mesma forma que temos nossa parcela de culpa na diminuição da oferta mundial de alimentos.
Da próxima vez que você desperdiçar um alimento, seja ele qual for, lembre-se que alguém poderia ser alimentado com os nossos exageros, ou ainda, ser salvo com aquilo que simplesmente chamamos de resto.

Leandro Ditzel
Membro da Academia de Letras, Artes e
Ciências do Centro-Sul do Paraná - ALACS

domingo, 17 de maio de 2009

"Um ser humano só se faz completo, quando é capaz de entender os sentimentos de um animal"
Leandro Ditzel